Guiana-wapichan

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Cheguei a Guyana no dia 20 de fevereiro, num voo de São Paulo até Boa Vista, uma cidade muito pobre no inicio do que viria a ser uma crise humanitária com a imigração de pessoas vindo da Venezuela. Gregor havia me dito que ali era o lugar mais próximo com possibilidades de adquirir aparatos tecnológicos.

Peguei um táxi até Bonfim, que é a cidade do lado Brasileiro da divisa (seca) entre Brasil e Guyana. Em Bonfim tem internet banda larga provida por pequenos ISPs. Tomei um táxi para Lethem, que é a cidade Guyana da divisa. Em Lethem também tem internet banda Larga. No caminho o taxista me perguntou se eu ia para Georgetown ou se ia ficar pelo interior, eu respondi que ia ficar pelo interior então ele disse que não precisava passar no serviço de imigração e passamos direto, a policia federal da Guyana nos deixou passar sem pedir algum documento e seguimos Guyana a dentro.

Em Lethem me esperavam Gregor, um americano que trabalha em Londres, Digital Democracy com a seguinte proposta (https://gist.github.com/gmaclennan/dfba3afd0575b6a9cbbe4200d9b26d82). Como também com companheiro nativo da vila Sholinab onde seria nosso futuro KG de operações para a visita com o objetivo planejar a criação de um Rede Comunitária.

Seguimos de Lethem para Sholinab, uma longa viagem de carro e chegamos de noite em Sholinab,como o lugar não conta com energia elétrica e eles tem poucos painéis fotovoltaicos o costume era mesmo de ficar no escuro, jatamos e fui dormir na casa de hospedes.

No dia seguinte pude conhecer melhor o lugar estávamos em um vilarejo bem árido um clima totalmente de Savana, um cenário de ilmes que passam na África, um lugar incrível.

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A vila tinha vários lugares para reunião e vários mercados

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Ficamos utilizando a cozinha da casa da Faye, que era esposa do Toshao da vila ambos muito espertos que sacam muito de qualquer assunto.

No primeiro dia me apresentaram tudo como funcionava o lugar, suas dificuldades e suas conquistas (são muitas!). Eu fiquei incrivelmente empolgado de trabalhar com essas pessoas, eles eram muito proativos para qualquer coisa nova que eu apresentava para eles como possibilidades. Logo no primeiro momento que tivemos para falar aparatos tecnológicos e essas coisas eles me mostram a dificuldade que têm com as coisas que estragam, pois não tem lugares para consertar e eles sempre se atrevem abrir as coisas e trocar peças, muitas vezes conseguem recuperar coisas quebradas e isso é um êxito fantástico para tais condições em que a internet para uma pesquisa é muito limitada, provinda de um satélite que fornece 1MB por USD$400, e uma latência de 2000ms muitas vezes.

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Como eu sabia que eles usavam energia fotovoltaica levei comigo uma série de microcontroladores de carga e coisas para repor em sistemas fotovoltaicos. Com isso conseguimos recuperar uma série de painéis fotovoltaicos que estavam lá sem controladores de carga e eles entenderam melhor como a coisa funciona e creio que isso agregou mais uns truques a suas práticas de concerto de eletrônicos.

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Tivemos uma reunião com o Toshao da Vila Sholinab para traçar os planos de ação nesses dias que eu ficaria por ali. Logo eu percebi que a ansiedade geral era de ter conexão com a internet por questões de segurança (eles tem muitos problemas com garimpeiros que invadem a região) e também econômica pois tem um link muito precário por um preço muito alto. Essencialmente faríamos o mapeamento da área e eu e mais um companheiro sairíamos por alguns pontos da divisa do Brasil procurando por algum ponto de conexão com internet que fosse possível geograficamente o enlace com a vila.

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Antes da partida ainda de tempo de bricar uns dois NanoLocoM5 que foram comprados pelo Greg, o problema foi que havia uma imagem em uma fase perversa do Chef. Cozinhei pelo lime-sdk e tivemos roteadores dois outros roteadores fazendo mesh.

No Dia seguinte antes da partida percebemos que eu estava ilegal na Guyana pois eu deveria sim ter feito a entrada na Guyana, diferente do que o taxista havia me dito. Assim não sabíamos o que fazer pois isso representava uma ameaça para o Toshao da vila, pois ele é como uma autoridade local e não poderia estar com alguém ilegal na área. Então tínhamos duas opções, ou eu voltava para Lethem e refazer a entrada oficial no pais ou teria que fazer a vistoria da área sem cruzar a fronteira e ter sorte de não aparecer alguma patrulha da policia.

Inicialmente escolhemos a mais emocionante, sai por ai ilegal mesmo para não perder tempo pois não tínhamos muitos dias para apresentar uma proposta para um encontro de todas as vilas wapichan que representa a instituição maior de toda a região.

Saímos de moto e a cada vila que passávamos pedíamos licença para o líder local e explicávamos o que estamos procurando, depois de algumas indicações nos falaram de uma vila wapichan na divisa do Brasil que tinha uma internet banda larga em uma escola infantil, e que seria possível que o Toshao dessa vila nos ajudasse com um possível ponto de conexão. Como eu estava ilegal não pude cruzar a fronteira nesse local e tive que esperar do lado Guyana da fronteira o companheiro seguiu para a cidade vizinha e depois de algumas horas voltou dizendo que ali não havia mais internet pois o link era muito ruim e não deu muito certo.

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Voltamos a Shulinab,replanejamos tudo olhamos bem no mapa em um bom momento de internet pude reavaliar os pontos de visada com Boa Vista percebemos que para Lethem era muito difícil a conexão pois havia uma montanha muito alta caminho para um link de internet que não era tão bom, assim achei duas montanhas muito altas que dava uma visada direta com Boa Vista. Porém os poucos pontos altos (cerca de 600m de altitude) são lugares sagrados para o povo wapichan, é onde os mais antigos ainda fazem seus rituais e também é lugar de disputa pois é onde os garimpeiros clandestinos vão para saquear minério e deixar destruição.

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A primeira reação foi negar a possibilidade de acessar esses pontos para internet (os mais velhos veem a internet ainda como uma coisa desimportante que é só para divertimento dos mais jovens), pois mesmo ali com essa pouco acesso que tinha com o satélite já tinha muito problema de conteúdo que os garotos estavam acessando e era uma crise a senha da internet.

Diante disso argumentei que internet pode representar sim muito acesso a conteúdo desinteressante mas também que cabia a eles educar os mais jovens nesse assunto porque se não outras pessoas vão fazer isso. Tivemos um sério debate sobre a importância da internet de tudo que é sagrado para seu povo e de como isso pode sim ser uma ferramenta importante para suas vidas e que só cabia a eles decidir o rumo disso.

Ele ficou convencido a levar essa proposta para os lideres de todas as vilas em um encontro que aconteceria nos próximos dias, mas para isso eu precisava levar um projeto mais consistente da ideia com orçamento e tudo. Mas para ter o orçamento precisávamos visitar o possível lugar e ter uma noção do que gastaríamos para construir uma torre no meio de uma montanha inabitável. O plano de conexão do enlace seria o seguinte:

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Sendo assim escolhemos uma montanha que não era a mais sagrada por motivos que eu não consegui entender muito bem. Tivemos a companhia de um guia espiritual o Gustavo que foi o último morador desse lugar que faríamos a vistoria. Saímos assim que amanheceu, fomos de moto, eu um companheiro dali e um Toshaou da vila vizinha foi em outra moto levando nosso guia. Depois de algumas horas de viagem de moto chegamos até o pé da montanha. Dali seguimos eu o companheiro e o nosso guia.

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Seguimos pela trilha em um lugar muito selvagem frequentado nos últimos 6 anos apenas por caçadores. Gustavo nosso guia conhecia todo o território e os perigos que poderíamos ter e foi nos alertando todo o caminho. Antes do anoitecer chegamos a um ponto de acampamento, não daria tempo de chegar até o ponto mais alto com a luz do dia. Não tínhamos levado muito mantimento pois seria um peso extra para a dura caminhada, então o companheiro já estava atento com a possibilidade de achar comida no caminho. Foi então que algo chamou atenção no meio do mato e ele subitamente arrancou seus sapatos e correu para mato a dentro com uma espingarda. Eu pouco pude entender o que estava acontecendo e fiquei ali com Gustavo nosso guia, descobri que ele falava português e conversamos muito, ele me explicou que viverá ali por mais de 40 anos e saiu fazia uns 6 anos pois já estava ficando velho e vivia ali sozinho e teve que ir para perto dos vilarejos, dissera ainda que esse ponto era onde sempre viveu seus antepassados onde eles se protegeram da ameaça dos homens brancos por séculos. Foi um lugar estratégico para proteção de seu povo pois tinham muita habilidade com arco e flecha e os inimigos não conseguiam se aproximar pela questão do terreno.

E de maneira súbita ouvimos um barulho aterrorizante vindo de um ponto da mata, era um tiro dado pelo companheiro. E então ele começou a gritar algo do meio do mato. Gustavo me dissera que ele havia acertado um porco selvagem e que estava precisando de ajuda para resgatar a caça. Fomos ao seu encontro na mata e resgatamos o jantar.

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Fizemos uma fogueira para cozinhar o jantar. Jantamos e depois preparamos as redes nas arvores para dormir. Foi quando que no meio da noite recebemos uma visitinha um pouco descontente com nossa atitude de ter caçado na área. Segundo Gustavo era um jaguar, que estava muito furioso por haver intrusos em sua área de caça. A cada 5 minutos ouvíamos um rugido de um lugar diferente da mata, segundo Gustavo essa era a tática que o jaguar tinha para nos deixar confusos e com medo. Assim nos orientou a fazer fogo ao nosso redor para que ele fosse embora. Nesse momento comecei a refletir na vida e como teria sido bom viver até aquele momento, se eu fosse encontrar com a morte não seria algo ruim, me sentiria orgulhoso de morrer fazendo algo que acredito e de maneira tão épica! Mas nada de morte, fizemos o fogo e lá pelas duas horas da manhã o jaguar se foi e pudemos dormir, ou pelo menos tentar dormir. Eu particularmente fiquei acordado a noite toda mantendo o fogo acesso só para garantir.

No dia seguinte acordamos em um estado muito particular de conexão com a natureza, ficamos mais alertas. Demos uma vistoria na área e fomos procurar água. Encontramos um lugar com água e nos abastecemos para a segunda jornada, que era chegar até o ponto mais alto da montanha. Assim foi deixamos as nossas coisas no acampamento e seguimos se muito peso montanha acima. Depois de duas horas de caminhada e muito conhecimento compartilhado sobre as arvores, as marcas dos antepassados chegamos até o ponto mais alto. Foi possível avistar Boa Vista de lá, assim como duas ou três vilas wapichan dali.

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Coletamos pontos GPS para acrescentar isso ao mapeamento que estão fazendo para outro projeto. Dali foi possível até pegar um sinal de telefonia móvel que funciona em pouco lugares.

Percebemos a presença de muitas pedras o que pode facilitar na instalação da torre pois podemos parafusar a torre nas pedras ao invés de gastar fazendo alicerce com cimento. Creio que parafusando e colocando pouca quantidade de cimento temos uma boa estrutura para a torre. Porém temos arvores muito altas ali, ou teríamos que cortar as arvores ou fazer uma torre consideravelmente alta para ficar acima da copa das arvores.

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Assim voltamos para o acampamento recolhemos nossas coisas e agora com muito mais peso pois tínhamos uma quantidade considerável de carne para levar de volta. Gustavo fez umas bolsas transadas com folha de coqueiro para levar a comida para casa.

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Depois de todo o trajeto de volta chegamos a Shulinab e já não havia mais ninguém ali, todos tinha ido para uma outra vila onde seria o encontro de todas as vilas. Um companheiro me buscou de carro e fomos para o encontro onde eu teria que apresentar a proposta a todos os lideres das outras vilas a usar aquele ponto daquela montanha para uma instalação de uma torre de internet, e ainda que eles precisaram usar recursos de um fundo que eles tem para isso. Houve uma articulação política que eu não entendi bem o que era, eu ia me prepara para falar no fim do dia mas mudaram toda a agenda e pediram para eu falar naquele momento que eu tinha chegado.

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Apresentei a proposta, houve muito debate sobre isso, essencialmente os convenci de que poderiam ter sua própria rede de comunicação tendo autonomia com a tecnologia e o serviço prestado. A maioria foi a favor e encaminhamos que eu faria um orçamento mais detalhado para que eles usassem o dinheiro de um fundo que teriam para isso.

Eu precisava voltar no outro dia pois não havia muitas possibilidades de transporte até Boa vista, e decidimos que eu aproveitaria um dia em Boa Vista para procurar um lugar para colocar a outra torre para colocar a antena para o enlace. Fui para Boa vista e passei o dia procurando por provedores de internet e os que ofereciam banda larga para potencialmente colocar em um ponto que era um tipo de associação indígena irmãos dos wapichan. Fiz todo o levantamento e achei alguns provedores com alguns planos.

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Uns dias depois Greg me enviou um e-mail pedindo o orçamento pois aparecera uma possibilidade de comprar os equipamentos com um fundo que tinha que usar logo se não ia expirar. assim fiz um orçamento meio corrido para que eles pudessem aproveitar e comprar os equipamentos para a torre.

Depois disso Greg havia dito que voltaríamos em setembro para retomar o projeto, mas não sei o que houve e acabou não acontecendo.